Donnie Darko #2 – Esquizofrenia Paranóica

Discutir esse filme tem sido prazeroso. Mas com mentes que acham que deve ser discutido. Geralmente escrever para o Café com Whisky é frustrante ao ponto de vista superficial, eu sou muito pretensioso é de uma arrogância notável, mas cá pra nós, é bem divertido ser assim de quando em vez. Sempre quis ter alguém para debater e compartilhar dos meus gostos. Eu sou daquelas pessoas que se por algum acaso não achou apenas um significado no final do filme, parte em uma busca (que pra mim é superdivertido) de outros significados ou até mesmo do significado oculto que o autor criou.

Dando continuidade ao tópico Darko, chegamos na data de 6 de outubro de 1988! Donnie estoura o registro de água da escola (mencionado no artigo anterior) e finca um machado na cabeça do cachorro mascote da escola (o mestiço), uma estatua de cobre maciço, sabe se lá como um garoto que nem saiu  da puberdade conseguiu fazer algo assim! Nessa cena de vandalismo premeditado, o que mais chama a atenção é o que ele escreve no chão como recado para quem quiser ver, “eles me obrigaram a isso”

Vou colocar de forma cronológica os dados até o final do filme.

10 de outubro de 1988

Donnie pergunta a sua professora sobre viagem no tempo (buraco de verme) onde ele mostra o livro “Filosofia da viagem do tempo” da Roberta Sparrow. Uma pausa pra um flashback, Darko recebe esse livro ao questionar seu professor Kenneth Monnitoff (Noah Wyle) pela primeira vez sobre o contexto de viagem no tempo, onde no meio de sua explicação, ele tira de dentro de sua bolsa o livro de Roberta Sparrow, surpreso, Donnie se envolve na leitura da obra da “Vovó morte”

Nesse momento do filme existe uma ligação implícita entre o que acontece com a Senhora Sparrow com o idoso do livro “The Destructors”, o isolamento da sociedade, a perseguição em chacota de alguns jovens da região. Morando em uma casa paupérrima longe das outras pessoas.

Em uma cena, a senhora Sparrow surpreende Donnie e seu pai no meio de uma conversa dentro do carro, quando se encontra no meio da estrada, quase sendo atropelada pelo coroa que não estava com o foco da sua atenção voltada a direção do carango. Ao parar para dar assistência a senhora que ia religiosamente todo dia olhar sua caixa de correio. Quando o filho Darko vai acompanhar ela até a beirada da estrada para que ela não tenha outra chance de se machucar, ela sussurra no seu ouvido “Cada criatura na terra morre sozinha”

18 de outubro

Os pais de Darko vão até sua psicóloga a Dr. Lilian Thurman (Katharine Ross), eu acho essa cena super interessante por que tem uma inversão de valores com os pais. Até esse ponto do filme os papéis deles, ou melhor, as suas características ainda não estavam completamente a mostra, passiveis a interpretações alienadas, apenas para preenchimento de lacunas. Ali o pai mostra em detalhes o quanto é passivo e o quanto está totalmente desligado dos problemas da família, quanto a mãe que não se mostrava não mais do que somente a mãe, se aprofunda com a Dra. Thurmam sobre o que deveria ser feito agora. Lá ela descreve a sua versão do que se passa com o cidadão (ainda a Dra), a hipótese de Donnie sofrer de alucinações durante o dia (ou ainda acordado) faz parte de um quadro de esquizofrenia paranóica.

E é aqui senhores, que o filme chega no ponto alto.
Até então eu não tinha cogitado essa possibilidade, da primeira vez que vi o filme fiquei preso demais apenas na viagem temporal e nem me toquei na possibilidade de algo dentro da cabeça do garoto, em algumas algumas pesquisas descobri um resumo do estado que a Dra. Informou aos pais

A esquizofrenia paranóide é o tipo mais homogêneo de esquizofrenia e o menos variável em comparação com outras esquizofrenias.
Caracteriza-se principalmente por estados de delírios primários que compreende uma percepção repentina de uma persecutoriedade única e especial, característica em uma situação.
A persecutoriedade (se sentir perseguido por algo ou por alguém) são convicções profundas para o sujeito e este não aceita outras causas por mais óbvias que estas sejam.
Além de, na esquizofrenia paranóide, o sujeito achar que está sendo seguido, perseguido ou atribuindo-lhes culpas, outros sintomas se relacionam a pensamentos sobre seu próprio corpo.
Nestes casos, o esquizofrênico acha que parte de seu corpo não está bem, não está funcionando corretamente ou ainda que algum órgão está falindo ou faltando. Muitas vezes esses órgãos estão relacionados ao coração, pulmão, rim, fígado, ou um órgão menos conhecido como o baço.
A sistematização do delírio é frequente, porém o esquizofrênico delirante paranóide é o que apresenta menos deteriorização de sua personalidade.
É comum relacionar-se bem com as outras pessoas, ter respostas afetivas próximas do normal e, com o processo de pensamento e cognição preservados.
O distúrbio esquizofrênico fica mais evidente quando o paciente é confrontado com o assunto que é emocionalmente significativo para ele ou quando é posto a prova por meio de testes de personaldiade ou testes projetivos.
De modo geral, as pessoas que convivem com o esquizofrênico paranóide somente reconhecem os problemas quando a pessoa tenta explicar suas crenças sobre seu corpo ou sobre as perseguições a que se sente submetido. Nestes momentos é que se percebe os delírios e as explicações sem sustentação e com origens bizarras e impossíveis.
As alucinações nestes esquizofrênicos também podem ocorrer e, da mesma forma que em outros quadros de esquizofrenia, associam-se a escutar vozes, ver vultos e pessoas mortas, receber ordens divinas, estar sob missão divina, etc.
Fonte: Psicologia na Net

20 de outubro

A extrema conservadora e também professora do Midlesex (escola onde Donnie estuda) Sra. Kitty Farmer (Beth Grant) convida o palestrante motivacional e bem lustroso Jim Cunningham (Patrick Swayze) para dar uma amostra do seu programa voltado a mostrar para pessoas de baixa estima que na vida, temos duas pontas, ou duas escolhas, dois caminhos a se seguir, o do medo que levaria a todo caos e desordem que o mundo pode causar e o amor, o caminho da paz, redenção e prosperidade.

Ele começa com um discurso entusiasta e interage com a plateia, mostra um video que exemplifica, o conceito de sua palestra, o video que não é mostrado conta a história de um garoto que se enveredou pelo caminho do medo, e olhe só o nome do rapaz, FRANK!

No final, em uma dinâmica com os alunos, Darko tem uma pequena discussão com o palestrante, eu acho hilária a cena, e bem construída, um garoto que se mostrava sempre na sua colocou o celebre palestrante na parede sem dar uma boa oportunidade de resposta, é uma cena importante no filme no contexto de perseguição. Teoricamente. Darko não estaria nem ai para o que o sujeito estava falando, ficaria ali fingindo prestar atenção até o final, mas no decorrer do filme, o contexto do trabalho de Cunningham entra de cabeça na vida do protagonista. O medo.

Nesse ponto do filme, a teoria de que tudo que ele vê é fruto de uma paranóia doentia ganha mais força ao meu ver, em uma nova conversa com a sua psicóloga ele admite estar lendo o livro de Roberta Sparrow, e que o mesmo condiz com toda a experiência bizarra que ele vive. Toda psicologia que acarreta em sua vida, tem um capitulo no livro exemplificando.  A teoria de viagem no tempo da Vovó morte fica mais aprofundada e Donnie parte para o significado e cegamente a tudo que Frank diz que ele deve fazer.

O envolvimento com Gretchen Ross (Jena Malone) aumenta depois de uma cena onde em uma apresentação de um trabalho na sala de aula, os “bad boys” fazem chacota de seu passado, a história mal contada de sua mãe e o envolvimento dela com um homem violento. Nesse momento de fraqueza e vulnerabilidade é que Donnie consegue espaço para dar uma investida.

Pulando algumas cenas pequenas, Donnie se encontra agora no cinema com Gretchen, vão assistir a uma sessão de “A morte do diabo, a ultima tentação de Cristo” enquanto na escola está rolando a apresentação de um show de talentos. Na sessão onde eles se encontram não tem mais ninguém alem dos dois, Gretchen pega no sono e ai oportunamente Frank, o coelhão macabro from hell aparece, e o dialogo… é formidável.

DONNIE DARKO
What happened to your eye?

FRANK
I’m so sorry
Don’t worry. You got away with it

DONNIE DARKO
Frank, when’s this gonna stop?

FRANK
You should already know that.

DONNIE DARKO
Why are you wearing that stupid bunny suit?

FRANK
Why are you wearing that stupid man suit?

Semana que vem tem Donnie Darko #3

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5 responses to “Donnie Darko #2 – Esquizofrenia Paranóica

  1. Belo texto, é realmente um filme que eu ainda tenho muito a entender!

    Mas só um adendo: Esquizofrenia paranóide e posição Esquizo-paranóide são conceitos, embora superficialmente parecidos, completamente diferentes.

    Primeiro é preciso deixar claro que a Psicopatologia é um ramo que estuda o adoecimento psíquico: psykhe = mente, alma; pathos = paixão, arrebatamento; logia = estudo. A esquiofrenia paranóide é uma patologia que faz parte do quadro das Psicoses (em psicopatologia trabalha-se com três grandes grupos: Os Quadros Orgânicos, as Neuroses e as Psicoses). Dentro das psicoses encontram-se, com frequência, a Paranóia ou transtorno delirante persistente, que é caracterizada por um delírio convincente, bem elaborado, sistematizado, em que a vida do sujeito passa a girar em torno dessa construção delirante e que é muito comum acreditarmos nessa ideia delirante (ver Don Juan deMarco); e a Esquizofrenia que é, de modo simplista, a cisão do Eu, onde vemos produções alucinatórias, delírios não-sistematizados, bizarros, absurdos etc. A esquizofrenia paranóide recebe esse nome porque dentre as outras “esquizofrenias” ela é a mais floreada, um pouco sistematizada, produtiva, rica em produções delirantes e alucinatórias (ver Estamira ou “O Solista”) – por isso é uma “homenagem” a Paranóia.

    Quando vamos para a Psicanálise (que é um campo do saber, uma teoria distinta), comumente vemos três grandes quadros: Neurose, Psicose e Perversão, mas que possuem estruturações difrentes dos três quadros estudados em psicopatologia. A Psicanalista Melaine Klein, ao dar uma nova leitura ao desenvolvimento psicossexual da criança postulado por Freud, apresenta a fase esquizo-paranóie como um momento do desenvolvimento infantil onde a criança (o bebê) é tomada por uma angústia persecutória – medo de ser aniquilada, agindo então defensivamente pela clivagem. Trata-se de uma posição/fase ambivalente onde o objeto é parcial: o que lhe dá prazer (o “seio bom”) é também o que lhe ameaça (o “seio mau”). Nesse processo, também conhecido como transitivismo (que pode vir aparecer em quadros esquizofrênicos), o sujeito está fragmentado (não há ainda um EU), sendo que na fase seguinte, a posição depressiva, essa fragmentação diminui e é o momento crucial no curso do desenvolvimento infantil. Para os psicanalistas, é na fase depressiva que se encontra o ponto de fixação da psicose maníaco-depressiva. Não necessariamente a manisfestação sintomática resultante de uma falha durante o desenvolvimento, principalmente na posição esquizo-paranóide, pode resultar somente na manistação do que conhecemos como Esquizofrenia Paranóide, mas fica claro a sua ligação com uma alteração da Consciência do Eu.

  2. Justo, na empolgação de fazer a publicação creio que coloquei o titulo da pesquisa da Dra. Klein que de fato me chamou muita a atenção, e por mais que seja um assunto que se apresenta em inúmeros filmes, definitivamente esse não é o caso explicito, partir do ponto da posição esquizo-paranoide teríamos que partir de mias suposições que o filme permite, como imaginar o que deveria ter acontecido em sua infância, ou simplesmente como era o comportamento dos seus pais quando ele era um recém nascido. Mas certíssima é claro, obrigado pela aula de significados destacando a divergência que foi feita! Vou providenciar uma edição rápida aqui!

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