Masʞara – Um ultimo trago de cigarro.

Carlos era um escritor meia boca, mas é claro que ele não se considerava um. Escrevia poemas nos quais se enchia de glória, cada texto era o seu melhor, e apenas ele sabia disso, ou o fazia saber.

Escrevia sobre um único assunto, a decadência dos sentimentos humanos. Poxa! Coisa mais batida, mas para ele não. Alguns amigos liam seus textos, ou diziam ler, apenas para satisfazer a vontade do amigo no qual queriam muito bem, mas ele sabia que ninguém conseguia ver o que ele via, “Ninguém consegue ter o mesmo olhar que eu”. Resolveu então escrever um livro, “será a minha melhor história” repetia sempre para si. Comprou um maço de cigarros e foi para a sua casa, colocou a água para fazer seu café e insistiu na ideia de completar a introdução antes mesmo do café ficar pronto.

Com café e introdução prontos. Abriu seu maço, sentou na frente do seu computador, acendeu um dos cigarros e se serviu do café fumegante na sua xícara predileta.

Começou a teclar ferozmente, e de uma forma que nem ele mesmo soube entender, a sua história saia, facilmente. “Cacete! Por qual razão não fiz isso antes?” Pensava em voz alta, estava tão concentrado que só conseguia dar um trago em seu cigarro quando terminava algum parágrafo bem trabalhado. Teclou, teclou, teclou e teclou. As palavras vinham, era algo mágico, “enfim vou ter alguma coisa de verdade” em meados do seu segundo capítulo o seu telefone toca. Ele não atende, a secretária eletrônica faz seu trabalho. “Nossa velho! Não posso atender agora, deixa um recado que eu vou entrar em contato mais tarde, fui!” – “Carlos, é o Jorge! O pessoal ta querendo dar uma volta hoje, atende essa merda ai que eu sei que tu ta em casa, anda companheiro… Ok, se animar me liga.” Carlos não pode deixar de rir da sua mensagem gravada, não de seu amigo Jorge, que ele considerava ser o melhor amigo que alguém podia ter, mas da mensagem ridícula que havia gravado, “Amanhã mesmo eu troco isso”. Não queria ver ninguém, queria apenas a sua história terminada antes do amanhecer.

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Voltando á sua escrita, ao cigarro e ao seu café, derramava as palavras com o contexto a risca do seu pensamento. Tecla, tecla, tecla e tecla. O café acabou, junto com o seu décimo cigarro e seu quinto capitulo. Carlos vai até a cozinha colocar para fazer mais café quando vê o seu aparelho celular em cima da mesa piscando, olhou, sete ligações não atendidas e duas mensagens não lidas, “O Jorge me ligou três vezes, Paulo me ligou duas e… não acredito! A Ana me ligou também, duas vezes, o que ela ainda quer comigo?” Leu as mensagens, JORGE:” Qual é camarada, deixa de besteira e vem beber com a galera, vai ficar trancafiado em casa por que sua namoradinha terminou contigo?”, “Você não sabe que está falando seu idiota” pensava novamente alto. A outra mensagem o deixou com as pernas bambas. ANA: “Carlos, uma hora vamos ter que conversar, para de fugir de mim e me encara como um homem.” Lançou seu telefone na parede e pisou em cima até ter certeza que de forma alguma ele voltaria a funcionar.

Foi ao banheiro, quando entrou, escutou seu telefone tocando mais uma vez, fingiu que não escutava, tomou um banho de água gelada, saiu. Trocou seu café por whisky, mas continuava com o seu cigarro.

Antes de continuar com sua história, foi até o telefone e tirou o fio da tomada, sentou-se. Tecla, tecla, tecla e tecla. Estava desacelerado seu ritmo de escrita. “MALDITA ANA, NÃO QUERIA QUE EU SAISSE DA SUA VIDA? ENTÃO SAIA DA MINHA!”

Há poucos dias, Ana ainda era sua namorada, Carlos a ama muito, e mesmo assim  ela resolveu terminar, não quis dizer o motivo, simplesmente que era melhor ele não saber, para esquecer da sua existência e seguir a vida, haveria outras. “Mais não como ela, como Ana não poderia enxergar isso?”

Foi se servir da sua bebida, tomou dois copos de uma vez, e voltou ao seu trabalho. Tecla, tecla, tecla e tecla. Avançou para o sexto capitulo e para o seu décimo quinto cigarro, olhou para o maço e calculou que  estava fumando demais, “já está muito tarde para sair e comprar outro maço, e não quero correr o risco de me encontrarem na rua, vou pegar leve, preciso deles ainda”. Pensou então no que Ana sempre falava, – “Esse maldito cigarro um dia vai acabar te matando”. Apesar disso, nunca teve problemas respiratórios ou algo relacionado ao exagerado consumo da nicotina. Acendeu mais um cigarro, olhou para os quatro restantes. Tomou mais duas doses da sua bebida. Já meio tonto e cansado, pelas horas sem dormir, parou, observou o que já tinha feito e não acreditou quando viu que estava no vigésimo capitulo, “ficou maior do que eu esperava” já estava perto do fim, poderia acender mais um cigarro, havia apenas dois, “quando foi que eu fumei e não reparei? Já ‘tô’ tão tonto assim?” Pegou a garrafa e virou direto, deu algumas goladas, só então deduziu que fumou seu cigarro sem nem mesmo reparar, a bebida já estava prejudicando seu discernimento de pensamentos, coisas ao redor, bebeu mais. Fumou seu penúltimo cigarro, e já no finalzinho, engasgou com a fumaça, nunca havia acontecido antes, “não é que aquela safada tinha razão? Vou acabar me matando com essa merda”. Olhou para seu ultimo cigarro no maço e disse em voz alta,” É O MALDITO ULTIMO CIGARRO QUE EU FUMO.” quantas vezes já não tinha repetido essa frase apenas naquele ano?

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Sentou-se na mesa, e mesmo estando embriagado, quis terminar a história. Faltava pouco agora, mal podia esperar para tê-la divulgada, seu trabalho reconhecido. Parou um pouco para pensar em seu final, ao recostar em sua cadeira acabou derrubando a garrafa no chão, que se espatifou e só não espalhou bebida por que Carlos soreu até o ultimo gole, não se importou, queria apenas fumar seu cigarro e pensar no seu final glorioso. Consegui visualizar, era realmente divino, se emocionou ao conseguir ver naquele final algo que não imaginaria chegar, mas seus movimentos já estavam seriamente comprometidos pelo excesso de álcool, caiu da cadeira e desmaiou.

Delirium Tremens. Um principio do que poderia ser um coma alcoólico lhe ocorre, mas ele não se preocupa, pensa apenas no seu final. “Não posso esquecê-lo”. Algo inesperado acontece, quando caiu da cadeira, deixou cair também seu cigarro, que aceso caiu em cima de uma almofada que estava no chão. Em questão de minutos a almofada se incendiou, o fogo que saia dela, era alimentado pelo carpete no chão e por mais matérias combustíveis que se encontravam no caminho, primeiro foi à cadeira, depois a mesa de seu computador, seguindo por suas cortinas e sofá. O fogo se alastrava de uma forma rápida pelo seu pequeno apartamento apertado. Carlos tentou levantar, viu o fogo o cercando, mas não se preocupava com os bens que estava a perder, ou sequer a própria vida, foi para frente do computador com dificuldades e chorou quando viu o mesmo sendo consumido pelo fogo. Nessa hora, ele já havia respirado muita fumaça e caiu no chão novamente, pouco lúcido viu o cigarro que ainda estava lá, queimando tranquilo, como se nada estivesse a acontecer. Carlos fechou seus olhos pela última vez, seu ultimo pensamento era, que apesar de nunca ter tido problemas por causa do cigarro, realmente, acabou morrendo por causa de um.

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Quando os amigos de Carlos chegaram no seu endereço já com a noticia do incêndio ele já havia sido controlado pelos brigadeiros de plantão, seu corpo carbonizado estava empacotado e pronto para o I.M.L. Seus amigos não podiam acreditar no que acontecia, nunca poderiam imaginar algo como isso, essa fatalidade, perder um amigo dessa forma. Era algo que só se via em novelas e filmes, algo que se lia as vezes em um jornal ou outro. Era algo bastante difícil de assimilar. Jorge com os olhos inchados de tanto derramarem lágrimas foi até o chefe dos bombeiros e perguntou o que havia acontecido.

“Está muito cedo para dizer, mas parece que se trata de um caso de suicídio!”;

“Como pode dizer uma coisa dessas?”;

“Não achamos nenhum indicio de incêndio criminoso ou acidental”;

“Não, ele nunca faria algo assim”;

“O quão próximo era do rapaz?”

“Era o meu melhor amigo”

“Ele estava passando por algum momento complicado?”

“Ele não se matou!”

“Escuta garoto, achamos a fita da secretária eletrônica dele e tudo indica para isso, só ligamos uma coisa com a outra, a propósito você conhece alguma Ana? Conhecida do suicida?“;

“Sim era sua ex-namorada, eles terminaram há pouco tempo”.

“Eu não tenho autorização para isso mais venha cá escutar uma coisa”

O Chefe dos bombeiros levou Jorge até um dos caminhões que estavam perto pegou a secretária eletrônica de Carlos e clicou em um botão para fazê-la funcionar. “Nossa velho! Não posso atender agora, deixa um recado que eu vou entrar em contato mais tarde, fui!” ;“ Carlos, me atende, é a Ana… Carlos! Tudo bem, então eu vou te dizer assim. Eu trai você, eu sei que você gosta de mim mais eu não sinto a mesma coisa, eu fiquei com o Jorge semana passada, nós dormimos junto e acabou rolando e por isso eu terminei contigo, já basta ter um amigo que não pode confiar, você não precisa de uma namorada assim.” Jorge não sabia o que pensar, seu melhor amigo havia se matado por sua culpa, não sabia o que fazer, sentiu a culpa, sentiu nojo de si mesmo, vomitou. O bombeiro tentou lhe segurar  mas ele soltou o braço e saiu em disparada.

Três dias depois, o jornal noticiava, o suicídio de Carlos Xavier de Souza, alegando que a causa do seu suicídio tinha sido por não poder suportar o fato de sua ex-namorada tê-lo traído com seu melhor amigo. E o suicídio de Jorge Fonseca Filho, pela culpa de ter sido um potencializador para a morte de seu melhor amigo.

Os jornais deram a noticia, e todos absorveram a história, mais uma coisa ninguém jamais soube, ou sequer vão saber, naquela noite, Carlos sequer ouviu a mensagem, não morreu triste. Estava feliz, tinha a sua história concluída, e um final diferente do seu, expetacular, final esse que só ele pôde presenciar, junto com o seu ultimo trago de cigarro.

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