O Advogado do diabo (1997)

Eu sou um fã do homem! Eu sou um humanista, talvez o último humanista” – John Milton

 

Diabo: do latim diábolus, significa, literalmente, “caluniador”. O nome equivalente Satan, vem do hebreu Shaitan, que significa “o opositor”. Essa figurinha carimbada surge nos mais diferentes contextos, desde o Antigo Testamento até as modernas seitas do Neo-Satanismo. O fato é que esse arquétipo, que é considerado a fonte de todo mal, tem sido também uma das fontes mais rentáveis nos últimos milênios, especialmente no cinema, cujos filmes com temáticas religiosas ou espirituais alavancam milhões de espectadores. Nas palavras de Hermes e Renato: “tudo que dá merda é coisa do capeta”.

Dentre os inúmeros filmes marcantes que falam sobre o “tinhoso”, O Advogado do Diabo (The Devil’s Advocate, 1997) é praticamente um clássico. Direção de Taylor Hackford (Ray, 2004) e elenco formado por Al Pacino, Keanu Reeves, Charlize Theron e Jeffrey Jones, o longa não alcançou uma bilheteria rentável nos Estados Unidos, mas foi um grande sucesso no Brasil e em outros países. A narrativa conta a história do advogado sulista Kevin Lomax, conhecido por nunca perder um caso e livrar as pessoas mais abomináveis de suas sentenças. No início do filme, Kevin está defendendo um professor de matemática acusado de abusar sexualmente de suas alunas. O advogado está pronto para abandonar o caso quando descobre o quão desprezível é o professor, mas quando é confrontado por seu adversário que alega que esta será sua primeira derrota, Kevin é tomado pelo seu orgulho e prossegue com o caso, libertando assim o acusado.

Filho de uma mãe extremamente religiosa, Kevin recebe um convite de John Milton para trabalhar na maior empresa de advocacia de New York, onde sua mãe logo nomeia a cidade como uma Babilônia dos tempos modernos. Kevin e sua esposa Mary Ann mudam-se para a cidade, onde ficam deslumbrados com o luxuoso local onde irão residir. Não é só isso que deixa Kevin deslumbrado, há uma “dama de vermelho” que desperta a luxúria em Kevin. Aqui percebemos então que a película vai girar em torno de alguns dos famosos pecados capitais, pois quem seria o grande mestre deles senão o próprio diabo?

Raiva e inveja são também outros pecados que permeiam o longa. De mortes, conspirações e até visões demoníacas, o acompanhar da narrativa é de palpitar fortemente o coração, o ápice é eletrizante. Com um desfecho fascinante, Al Pacino convence, mais do que isso, ele é o próprio demônio em pessoa. Em seu discurso, alega que ele, o demônio, não é um opositor da raça humana e sim é o seu maior amante. E o amor para ele? Nada mais que: “Pela bioquímica, não é diferente do que saborear uma enorme barra de chocolate”.

O filme inteiro é uma crítica ao quão destrutiva tornou-se a raça humana, chegando ao ponto de ser um tipo de sanguessuga na Terra, um vírus descontrolado. Com relacionamentos fugazes, informações que circulam em segundos e nenhuma profundidade, o ser humano se transformou em um produto  supérfluo de supermercado. No filme temos também a questão o livre-arbítrio sendo discutida, do empoderamento das suas próprias ações. Não há nada mais humanístico do que colocar a responsabilidade do homem por suas próprias ações, que normalmente tende a terceirizar sua culpa. Como diria Sartre, “o inferno são os outros”. Outorgar a responsabilidade de suas próprias escolhas é uma tarefa tão dolorida e angustiante que talvez seja por isso que mitologicamente só o demônio poderia fazê-la.

Provocante, o filme desperta inúmeras questões a respeito da modernidade e também, de fundo, a religiosidade. Para quem não o viu, é um mais do que uma dica, é quase uma obrigação.

3 responses to “O Advogado do diabo (1997)

  1. Penso a mesma coisa desde que vi o filme pela primeira vez: Ele é o diabo! Ele convence demais, ficou perfeito… Al Pacino é, sem dúvidas, um dos melhores atores que eu já tive o prazer de ver trabalhando.

    As críticas desse filmes são magníficas, como são tradadas e tudo mais. E os personagens também são incríveis, desde apresentação ao desenvolver.

    Já pensei em como seria se o John Milton fosse interpretado pelo Anthony Hopkins… deu a maior confusão na minha cabeça!

  2. Quando recebi o e-mail até tremi, é um dos meus favoritos, mesmo com o zombie do Keanu “Horrivis” no elenco. Nem preciso dizer que Al Pacino dominou do inicio ao fim e a temática? Nossa, como foi dito, vai muito alem do que a presença do “tinhoso” na terra, é uma questão do ponto precário e ridículo que o ser humano chegou. Ótima resenha. Excelente filme.

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