Sucker Punch – Mundo Surreal (2011)

Surreal: do francês surréel, é aquilo que causa ou denota estranheza, o que não pertence à esfera do real. Refere-se ao que é estranho, bizarro, absurdo, ao imaginário. É de saber que aquilo que é surreal sempre atraiu muitos curiosos, não sendo à toa que o movimento artístico do surrealismo arrastou vários admiradores (uma salva de palmas para Salvador Dalí). O papel do inconsciente aqui nessa discussão é fundamental, sendo este uma instância psíquica não-racional e também uma fonte inesgotável de criatividade. Os processos oníricos, ou melhor; o sonho também possui seu papel nessa dinâmica psicológica, sendo uma atividade quase alucinatória e inconsciente, fundindo-se com a realidade. Pensar em um filme nesses moldes “surreais” pode ser uma empreitada difícil e arriscada, ainda mais quando se pretende alcançar um vasto público. Nesses casos, garantir o êxito é uma árdua tarefa. É isso que o filme “Sucker Punch – Mundo Surreal” (Sucker Punch, 2011) tenta fazer. Agora, se ele foi bem sucedido ou não, resta-nos descobrir.

A direção e roteiro do filme ficam por conta de Zack Snyder (Watchmen, 2009), o elenco conta com Emily Browning (Navio Fantasma, 2002), Abbie Cornish (Elizabeth: A Era de Ouro, 2007) e Oscar Isaac (Drive, 2011). A narrativa ambienta-se da década de 50, onde uma garota é internada em um manicômio por seu padrasto, depois de uma tentativa de matá-la. O ganancioso homem consegue incrimina-la pela morte da irmã. Sim, a película de início logo nos apresenta seu caráter trágico! Como todo hospital psiquiátrico das décadas que antecederam a “reforma psiquiátrica” (procurem saber mais sobre Franco Basaglia), a garota, conhecida como Baby Doll (Emily Browning), passa por sessões de tratamento dolorosas e aguarda apenas o chegar da hora de sua sessão de lobotomia.

Se a palavra-chave do surrealismo é a criatividade (enquanto produção do inconsciente), vemo-la constantemente em ação no filme. Um mecanismo interessante que os seres humanos têm para fugir de uma realidade massacrante e extremamente dolorosa é criar um subterfúgio mental, uma fantasia, um sonho, um devaneio, ou até mesmo uma “outra personalidade”. Em casos mais graves vemos uma ruptura completa da mente, uma cisão do eu e que apenas a loucura pode preencher esse vazio criado a partir dessa ruptura (vejam o personagem “Joker” da franquia Batman, por exemplo). Afastar-se da realidade é um escudo contra as ameaças externas. Diante do abismo e da dor, Baby Doll então se entrega em suas fantasias e refugia-se em sua mente criativa. Ali, ela transforma o manicômio em um bordel, enfrenta samurais mutantes, robôs, dragões e um exército nazista de morto-vivos.

Ainda que com muitas falhas (o filme não é uma obra prima da sétima arte), Sucker Punch apresenta uma bela fotografia. O roteiro é por vezes perdido, solto, cheio de lacunas e não-sistematizado, e que na verdade essa não-sistematização é uma das características do pensamento psicótico/esquizofrênico. Adentramos na mente de Baby Doll, experenciamos sua loucura e vemos que, à medida que ela enfrenta suas provas fantasiosas, ela articula a todo o momento com a realidade. Talvez isso nos faça questionar sobre o que é realmente a realidade, algo que fica bem pontuado com o desfecho do filme.

Não devemos nos esquecer da trilha sonora, que é um verdadeiro elogio à loucura (as graças de Erasmo de Rotterdam). Emily Browning ataca de cantora, o que faz até com um relativo êxito e nos traz uma versão de “Sweet Dreams” do grupo Eurythmics. Há também Björk, que sem dúvidas é uma especialista do “não-linear” e até um mashup de Queen. O filme fica para uma indicação a lá “cine pipocão”, garantindo uma diversão momentânea, por vezes bizarra e um pouco maluca. Só tenham o devido cuidado para não se deixarem levar por esse doce surrealismo.

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