ENGOLE! – Quando você duvida da própria casta – Parte II

Você aperta o cigarro com a ponta do pé e corre. Não há como perder a entrada da Clara.

Você adentra novamente e espera a clássica marcha nupcial ao som de piano e violinos ou, ainda, um órgão, até que…

Não! Não!

Um protótipo gordo de Mariah Carey solta um “Uh, uh, uh” melífluo e você segura a gargalhada, deixando escapar, apenas, um grunhido, e finge tossir enquanto sua tia Vânia lhe reprime com o olhar.

Mariah Carey sobe o tom e afasta o microfone na tentativa de não estourar-nos os tímpanos e sorri, deliciando-se com a própria voz, enquanto quase todas as pessoas retraem os ombros na tentativa de se esquivar daquele grito – sim, ela gritava – de libertação feminina.

Jaz surdo, agora é possível ver o restante daquele evento grandioso quase inspirado pelos bailes de princesas da Walt Disney. Depois de falida, claro.

Carlinhos entra com as alianças num coração de veludo recheado de espuma fofa, observando os olhares dos parentes desconhecidos.

Atrás dele, duas meninas, que quase se jogam no chão para ver quem vai na frente, jogam pétalas de uma espécie de rosa ainda desconhecida pela Biologia, que mais se parecia com violetas, de tão escuras e úmidas.

Mariah se cala – e você agradece a Deus – e instala-se um silêncio à espera da entrada de Clarinha…

Você ouve um “dom” e fica feliz ao ouvir o piano e a tão esperada marcha nupcial, até que Mariah arranha a garganta aquecendo a voz e sorri. Ao tentar sair sua mãe lhe segura pelo braço e sorri docemente.

As portas se abrem e você vê Clara…

Não! Você vê duas golas bufantes capazes de segurar um ninho de João de Barro; abaixo delas dois torresmos suados e manchados pelo desodorante saltam para fora do vestido branco rendado.

Na boa, ou esse vestido foi da mãe da vovó ou essa menina é daltônica e confundiu branco com amarelo. “Deus, o Senhor me colocou nessa família para que eu aprendesse a trabalhar o amor ao próximo, não foi?”

Você irreleva aquilo e pensa no amor que os noivos sentem, na história dos dois…

Ah, o noivo…

Adriano (ele não é o Imperador, mas a circunferência abdominal é a mesma) é um cara típico do interior: cabelos oleosos que precisam ser penteados com o pentinho de bolso; belos dentes mal tratados pelos remédios que tomou na infância…

Mariah começa uma música da Whitney Huston. Deus! É quase um show das ‘Divas’.

Clara entra abrindo passagem para sua tão sonhada calda. 3 metros! Uau! Deve ter gastado um dinheirão para comprar aquele tecido todo. E sem falar do preço dos carrapichos que vinham agarrados a ele. Um buquê de flores do campo, que estavam mais tristes que minha avó que perdia o último capítulo da novela para ver o sonho da sua netinha sendo realizado. Esse casamento custou caro, muito caro. Clara tinha uma barriga linda, com bebê que simbolizava aquele ato de amor. Sim, eles se casaram por amor.

Você olha para sua mãe ameaçando acender o cigarro dentro da igreja e ela te frita com o olhar, mas te deixa passar, para aquele que seria o cigarro mais longo da sua vida…

[Continua na festa, não perderei a oportunidade de contar como foi a festa]

2 responses to “ENGOLE! – Quando você duvida da própria casta – Parte II

  1. Na boa, ou esse vestido foi da mãe da vovó ou essa menina é daltônica e confundiu branco com amarelo. “Deus, o Senhor me colocou nessa família para que eu aprendesse a trabalhar o amor ao próximo, não foi?” kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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