As mil faces de Alice – Parte 3

Em nossa terceira parte do especial “As mil faces de Alice”, depois de um longo caminhar entre os filmes, animações e séries (ver especiais 1 e 2), chegamos ao momento crucial desta viagem em que a obra de Carroll mostra-se como um evidente e verdadeiro símbolo da cultura pop. Mencionada em obras que vão desde a ficção até o terror B, Alice no País das Maravilhas é parafraseada, citada, ironizada e louvada, marcando diversas gerações. Este mundo ao qual adentraremos agora é o mundo do simbólico, onde Alice pode representar tudo, qualquer coisa, assim como um símbolo que nada mais é do que a representação de uma ideia muito maior. Alguém aí ousa a vir conosco ao “outro lado do espelho?

Matrix (1999) Larry e Lana Wachowski:

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A obra que consagrou os irmãos Andy e Lana Wachowski, na época Andy e Larry, como ícones modernos da sétima arte também traz em seu conteúdo uma série de referências – desde a Filosofia grega, mitologia e religião, até “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll. A trama do filme que revolucionou o cinema das grandes indústrias do final do século passado se baseia na história de Thomas Anderson/Neo (Keanu Reaves), um estereotipado programador de computador que é atormentado com pesadelos de um tempo futurista. Aos poucos Thomas começa a duvidar da realidade que o cerca e com a ajuda de Morpheus (Laurence Fishburne) e Trinity (Carrie-Anne Moss), ele descobre que é mais um dentre os milhares enganados pelo sistema Matrix. Eis que Matrix é um sistema inteligente e artificial que manipula e controla a mente dos seres humanos e cria a ilusão de um “mundo real”, ao mesmo tempo em que usa seus cérebros e corpos para produzir energia para alimentá-lo. Não irei me delongar sobre as questões místicas e filosóficas de Matrix, aliás, esse seria um tema bastante interessante para ser pautado em um especial aqui no Café. Voltando para o mundo carrolliano, em um dos momentos do filme, Thomas/Neo é instruído a seguir o Coelho Branco através de estranhas mensagens que surgem na tela de seu computador. Instigado pela mensagem, é a partir desse momento que Neo toma a decisão de seguir as pistas que lhe aparecem e ir para o “mundo das fantasias” ou “mundo dos sonhos” que é Matrix. Assim, é nesse momento que ele se assemelha a pequena Alice, que segue o atrasado e estressado Coelho Branco até se deparar em um mundo que ela jamais imaginou. Morpheus chega até comparar Neo como Alice, principalmente porque ambos os personagens tiveram que realizar suas escolhas por si mesmos e arcar com as consequências dessas escolhas.

P.S.: O Coelho Branco é um personagem que vive sempre atrasado e tem em mãos um relógio de bolso para orientá-lo quanto ao tempo. Já foi mencionado também na série Lost (Jeffrey Lieber, Damon Lindelof e J.J. Abrams, 2004). No popular, referenciar-se ao Coelho Branco pode significar tanto seguir impulsivamente a uma pista que salta aos olhos quanto à transição do mundo real para o mundo dos sonhos/fantasia.

 A Hora do Pesadelo 4: O Mestre dos Sonhos (The Nightmare on Elm street 4 The Dream Master, 1984) – Renny Harlin:

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Nesse emaranhado de citações e referências, nem mesmo o mestre dos sonhos conseguiu escapar da tentação de citar Alice em seu reino. Mais do que citar, no quarto filme do cruel e eterno pesadelo da rua Elm, Freddy Krueger tem como sua rival e protagonista ninguém menos do que Alice. Sob a direção de Renny Harlin (O Exorcista – O início, 2004), A Hora do Pesadelo 4 mostra mais um retorno de Freddy (Robert Englund) que agora está disposto a matar de uma vez todos os sobreviventes da rua Elm. Kristen (Tuesday Knight), uma jovem paranormal que havia enfrentado Freddy no longa-metragem anterior, transfere seu poder de atrair as pessoas para o mundo dos sonhos para Alice Johnson, interpretada por Lisa Wilcox. Não se trata apenas de uma comparação forçosa trazer Alice para este contexto, acentuando o fato de que o “mundo dos sonhos” de Carroll tornou-se o reino dos pesadelos de Freddy. A referência fica evidente quando a poderosa Alice torna-se a inimiga perfeita para Freddy, que em uma das cenas finais do filme dispara a seguinte sentença “Bem-vinda ao País das Maravilhas, Alice!. Afinal, naquele universo surreal e sádico de Freddy, quem melhor do que Alice para encará-lo?

Resident Evil: o Hóspede Maldito (Resident Evil, 2002) Paul W.S. Anderson:

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 O diretor Paul W.S. Anderson, em sua primeira adaptação do game da Capcom, também cedeu aos encantos e resolveu fazer referência à obra de Lewis Carroll. Em “Resident Evil – o Hóspede Maldito”, Anderson deixou bem claro que não se tratava de uma adaptação literal do jogo e, portanto, seria cabível alguns elementos e personagens diferentes – aliás, Anderson é fã declarado de “Alice no País das Maravilhas”. Em Resident Evil, Alice já está bem adultinha e é uma típica heroína de filmes de ação, sendo interpretada por Milla Jovovich (“O Quinto Elemento”, 1997), embora não deixe de ser a personificação da personagem de Carroll. Alice é uma empregada da famosa Corporação Umbrella (“ella, ella, ê ê”) que vai parar dentro da Colmeia, que nada mais é do que um País das Maravilhas versão terror, e enfrenta nada mais nada menos do que um exército de ferozes zumbis – infectados pelo T-Vírus, um vírus mutante e altamente mortal. Além da alusão a personagem, ao País das Maravilhas e do mundo em Através do Espelho, Anderson também se utiliza de alusões ao cenário da animação da Disney de 1951. Porém, a referência mais importante, além da própria Alice, é a Rainha Vermelha que em Resident é um supercomputador sádico, severo e que quer ver todo mundo com suas cabeças decapitadas. Ironicamente, a Rainha Vermelha de Resident aparece em um holograma sob a forma de uma criança – vermelha, é claro. Para saber um pouco mais sobre o filme, leia as críticas: Resident Evil – o Hóspede Maldito e O filme é ruim, mas a Trilha Sonora salva.

Resident Evil 5: Retribuição (Resident Evil Retribution, 2012) Paul W.S. Anderson:

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Como falar de mortos-vivos é falar de algo que retorna para matar, atrapalhar ou acabar com paciência, logo, Resident Evil retorna em seu quinto episódio para exaurir a paciência de qualquer um. Sem maiores novidades, o longa-metragem traz o retorno de Alice enfrentando a Corporação Umbrella dentro de um emaranhado de socos, tiros, sangue, explosões e muito slow motion. Porém, a novidade é que a tecnologia (e o dinheiro) puderam trazer uma representação mais convincente da Rainha Vermelha, que agora se parece mais com uma linda garotinha. Ainda com tanta formosura e graciosidade, a Rainha Vermelha de Resident Evil continua uma megera sem igual.

P.S.: Sempre há muita confusão em relação às personagens Rainha Vermelha e Rainha de Copas. Basicamente, a Rainha Vermelha aparece no segundo livro de Carroll – “Através do Espelho e o que Alice encontrou por lá”, é uma jogadora de xadrez e é o contraposto da lesadinha Rainha Branca. Já a Rainha de Copas aparece no primeiro livro – “Alice no País das Maravilhas”, e é a rainha intempestiva casada com o frouxo Rei de Copas e que adora jogar críquete e cortar cabeças nas horas vagas.

Alice in Murderland (2010) Dennis Devine:

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Pegando carona na formula de filmes de terror adolescentes, Dennis Devine tentou criar em 2010 a sua própria adaptação de Alice no País das Maravilhas. Sendo um filme de baixíssimo orçamento, Alice in Murderland conta a história de Alice Lewis (Malerie Grady), uma jovem bem moderninha que decide comemorar seu aniversário em uma boate ambientada com o tema “País das Maravilhas”. No meio da curtição que é fechada só para as meninas, há um “personagem que não foi convidado” – alguém vestido de Jaguadarte (Jabberwocky), que se revolta por ter sido esquecido e resolve matar todo mundo. Em poucas palavras, esse não é um filme agradável de se ver, não por ser pesado ou brutal, apenas por ser bem ruim mesmo – de cogitar o porque de desperdiçar o tempo em tê-lo assistido. Repleto de interpretações péssimas, recursos precários e uma má direção, o filme é uma comédia por acidente. Porém, vale a pena dizer que a ideia é no mínimo bem interessante.

P.S: O Jaguadarte é um personagem de Através do Espelho que já esteve no filme dirigido por Terry Gilliam, “Jabberwocky – Herói por Acidente”, de 1977. O Jaguadarte também aparece no filme Alice no País das Maravilhas de Tim Burton (2010).

BÔNUS: A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no kamikakushi, 2001) Hayao Miyazaki:

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                        A sublime animação de Hayao Miyazaki que encantou o mundo e levou o Oscar de Melhor Animação de 2003, A Viagem de Chihiro, conta história da garotinha Chihiro (voz de Rumi Hîragi), uma menina de 10 anos, que se vê obrigada a mudar-se de cidade com seus pais. Chihiro percebe que seu pai se perdeu no caminho para a nova cidade onde irão morar, em um túnel aparentemente sem fim que é guardado por uma estranha estátua. O túnel os leva para uma cidade aparentemente deserta. Os pais de Chihiro decidem parar e comer uma comida que está em uma das casas, enquanto Chihiro, com sua habitual curiosidade infantil, vai explorar um pouco a cidade. Ao reencontrar seus pais, Chihiro fica surpresa e desesperada ao ver que eles transformaram-se em porcos, enquanto que misteriosos seres e criaturas míticas começam a surgir do nada. A missão da garota é fazer de tudo para reverter o que aconteceu, em meio a um mundo completamente bizarro e fantasioso. A animação é considerada por muitos como uma releitura do trabalho de Lewis Carroll, contendo também algumas alusões a era vitoriana. Entre Chihiro e Alice é mais do que uma curiosidade infantil que as une, mas também uma personagem que amadurece a medida que a situação em que se encontra a exige esse esforço, ao contrário das personagens femininas comuns. Contudo, é inegável que a obra de Miyazaki seja fantasticamente única e que tenha seu próprio e fascinante mundo, de um brilhantismo absoluto.

Chegamos ao final da terceira parte do nosso especial. Se pensam que ele termina por aí, estão completamente enganados, pois o País das Maravilhas esconde surpresas e histórias que ninguém sonharia em conceber (ou melhor, apenas Alice sonharia). No próximo capítulo deste longo “livreto” de compilações de Alice, abordaremos algumas das citações musicais, mostrando o quanto a magnífica invenção de Lewis Carroll adentrou por diversos campos da cultura, principalmente pelas diferentes formas de arte. Então, até o próximo passo de nossa jornada e… Siga o Coelho Branco!

2 responses to “As mil faces de Alice – Parte 3

  1. Só agora resolvi comentar aqui que estou amando a categoria.
    Li Alice já faz um bom tempo, e desde a última vez que vi a animação já devem fazer quase uma década (estou ficando velha).
    Mas é bom relembrar alguns detalhes, especialmente conceituais fazendo uma ponte com filmes que vi recentemente. Em Matrix essa conexão é bem óbvia, mas não tinha caído a ficha sobre a viagem de Chihiro.
    Estou aguardando pelas próximas partes!🙂

  2. Eu fico surpreso a cada artigo que é lançado, é uma abordagem muito boa! É sempre bom resgatar alguns valores de obras tão grandes e tão inspiradoras que ficam perdidas no meio de tantos contextos grotescos quem andam surgindo!

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