O Grande Gatsby (2013)

Com muito champanhe, luzes e música que “O Grande Gatsby”, adaptação cinematográfica do livro homônimo de F. Scott Fitzgerald, chega às telas do cinema. Cabe ressaltar que esta não é a primeira vez que o clássico literário ganha uma versão fílmica, sendo a primeira realizada em 1926 (de Herbert Brenon), uma em 1949 (de Elliott Nugent) e a mais conhecida, a de 1974 (de Jack Clayton). Além disso, há um filme feito para a TV norte-americana em 2000 (sob a direção de Robert Markowitz). Nesta tão esperada versão de 2013, a direção fica por conta de Baz Luhrmann (“Moulin Rouge – Amor em Vermelho”, 2001) e é composto por um elenco de estrelas hollywoodianas como Leonardo DiCaprio, Carey Mulligan e Tobey Maguire.

theGreat-Gatsby-Party

A trama conta a história do jovem Nick Carraway (Tobey Maguire) que vai morar em Nova Iorque para viver a vida próspera e deslumbrante do período que se passa durante a Primeira Guerra Mundial (deslumbramento e crescimento que são destacados em um belíssimo plano geral da cidade). Como o próprio Carraway deixa transparecer, Nova Iorque tem vida própria e alguns de seus cidadãos são absolutamente icônicos. Um deles é seu riquíssimo vizinho, o misterioso Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio). Após ser convidado pelo milionário para uma de suas suntuosas festas, o relacionamento de ambos transforma-se gradualmente em uma amizade. Nick descobre que seu novo amigo nutre uma antiga e forte paixão por sua prima, Daisy Buchanan (Carey Mulligan), e resolve reaproximar os dois. Claro, o romance dos pombinhos tem um empecilho: o marido de Daisy, o rico e “Don Juan” Tom Buchanan (Joel Edgerton).

THE GREAT GATSBY

Nick Carraway (Tobey Maguire) é a figura do narrador, fazendo jus ao livro. No entanto, tal papel recorrentemente desempenhado por Maguire chega a provocar certo cansaço e tédio. É a velha história: ou um cineasta sabe usar bem um recurso, ou ele utiliza-o demasiadamente apenas porque é incapaz de fazer algo melhor. Carrey Mulligan apresenta uma Daisy comum e sem sal, nada mais do que seu papel convém mostrar. Porém, a química com Leonardo DiCaprio não acontece e, por vezes, paira aquela vontade de vê-la sendo atirada do andar da mansão de Gatsby ou qualquer coisa do tipo. Aliás, DiCaprio mais uma vez atrai todos os holofotes e consegue suplantar o fascínio e despertar a empatia do espectador facilmente. Não é difícil se compadecer com a depressão e a crise existencial enfrentada pelo personagem a partir da segunda metade do filme. Afinal de contas, Gatsby é um retrato do ser humano arrastado por pathos (paixão) até suas últimas consequências – um retrato das vicissitudes e fraquezas que cercam a vida humana, além das virtudes mantidas intactas em nome de algo nobre: no caso, o Amor.

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Devo ressaltar que não li a obra de Fitzgerald, mas acredito que independente de uma obra cinematográfica ser adaptada ou não, ela tem que se sustentar por si mesma. Daí que reside o primeiro problema de “O Grande Gatsby”: do primeiro a até meados do segundo Ato o filme é uma desordem caótica e colorida, portador de um ritmo que se desvia; um filme que se perde naquilo que deseja contar ao público. É óbvio também esperar ver nas telas todo o glamour e exuberância que fizeram Luhrmann cair nas graças do espectador com Moulin Rouge. Contudo, o excesso de autorreferência torna O Grande Gatsby um verdadeiro evento carnavalesco da alta sociedade norte-americana. Muitas pessoas agradáveis e bonitas, muitas roupas caras e finas, muita bebida e comida, muita gandaia. Há muita informação para ser devidamente processada e interpretada pelo espectador. É tudo em excesso e já dizia Aristóteles que os excessos são um perigo! O 3D é bonito, somente isso, e não contribui nada para melhorar (ou não) a experiência que é assistir a este filme. Em resumo, é verdadeira uma escola de samba em 3D.

A trilha sonora é impecável, exceto por contar com Jay-Z (não se embraveçam, eu realmente tenho uma birra com o Jay-Z) que também assina a produção executiva. As músicas se encaixam perfeitamente no contexto, diga-se de passagem, ressaltando a crítica aberta ao modelo econômico e de produção que tanto fizeram os Estados Unidos deslanchar como potência mundial. Essa crítica ao American Way of Life fica explícita: a ascensão dos novos ricos, a efervescência da Bolsa de Valores de Nova Iorque, o capitalismo produzindo seus melhores frutos. No entanto, a obra deixa claro que o luxo é vazio, as relações são supérfluas e imorais e que o capitalismo selvagem é uma maquina destruidora de seres humanos – claro, essa crítica existe apenas graças à obra de Fitzgerald, e não pelas mãos de Luhrmann.

Leonardo di Caprio and Carey Mullligan in a still from The Great Gatsby

Assim como qualquer outra adaptação de uma obra da literatura, a principal questão surge (e é uma questão que sempre aparecerá) diz respeito à fidedignidade do longa-metragem. Além disso, não se trata apenas de adaptar, mas sim de adequar a uma linguagem completamente diferente – é nesse ponto que O Grande Gatsby de Luhrmann tem seus pontos favoráveis, pois insere elementos da cultura contemporânea sem violentar (tanto) a obra original. O longa peca gravemente pelos seus excessos, pelo descontrole ao mostrar uma exuberância estética e se desleixar completamente quanto a história apresentada. De fato, há muito barulho para pouco serviço, confirmando a ideia de que o filme não seria lá grandes coisas além de um amontoado de estrelas do cinema.

Nota: 6/10.

-The-Great-GatsbyTítulo Original:  The Great Gatsby. Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: F. Scott Fitzgerald (original), Baz Luhrmann e Craig Pearce. Produção: Baz Luhrmann, Catherine Knapman, Catherine Martin, Douglas Wick e Lucy Fisher. Produção Executiva: Bruce Berman, Barrie M. Osborne e Jay-Z. Fotografia: Simon Duggan. Elenco: Amitabh Bachchan, Arthur Dignam, Barry Otto, Brendan Maclean, Callan McAuliffe, Carey Mulligan, Corey Mills, Daniel Newman, Drew Pearson, Elizabeth Debicki, Felix Williamson, Gemma Ward, Goran D. Kleut, Isla Fisher, Jacek Koman, Jack Thompson, Jason Clarke, Joel Edgerton, Kate Mulvany, Kim Knuckey, Leonardo DiCaprio, Max Cullen, Stephen James King, Tobey Maguire, Vince Colosimo. Gênero: Drama/Romance. Ano: 2013. Duração: 142 minutos. Idioma: Inglês. País: Estados Unidos e Austrália. Distribuidora: Warner Bros. Classificação: Acima de 14 anos.

2 responses to “O Grande Gatsby (2013)

  1. Eu esperava mais, mesmo sem conhecer antes o livro. A crítica é realmente interessante mas o foco no filme é mesmo fazer algo bonito e pulsante , e ele passaria despercebido sem os nomes famosos nele. Saí do cinema com aquela sensação de que deveria ter escolhido outro filme.

  2. Pingback: As mil faces de Alice - Parte 5 | Café com Whisky·

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