Vanilla Sky x Abre Los Ojos

A primeira iniciativa de fazer um “versus aqui no Café com Whisky ficou por conta do artigo “Joker VS Joker”, de autoria do Yuri Borges. Desta vez, o empreendimento consiste em colocar um filme versus outro, não visando sua comparação ou incitando a escolha de um suposto “melhor filme”, mas sim mostrar sob pontos de vista diferentes como uma mesma história pode ser contada. Afinal, o trabalho de contar histórias de formas distintas existe há séculos e é sabido que há maneiras que funcionam, maneiras que atraem e outras que não agradam a ninguém. Bem como também existem vários modos de narrar algo de forma a suscitar diferentes emoções (para muitos “Chapeuzinho Vermelho” já foi um conto de terror, por exemplo). Portanto, o presente debate gira em torno de se conferir como essa história foi contada, para quem e se realmente deu certo. Para essa primeira tentativa, temos os dois filmes: Vanilla Sky e Abre Los Ojos. Prontos?

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Vanilla Sky (2001) é um filme dirigido por Cameron Crowe (Jerry Maguire – A Grande Virada, 1996). Com um roteiro adaptado por Crowe, trata-se de um remake americano do filme espanhol “Abre Los Ojos”, de Alejandro Amenábar. O filme conta a história do rico e bonitão David Aames (Tom Cruise), que desfruta de tudo o que o dinheiro, poder e beleza podem lhe oferecer. Um galante nato, que vive pulando de cama em cama e tem uma amizade colorida com Julie Gianni (Cameron Diaz). Um belo dia, inesperadamente como sempre, o amor bate em sua porta sob a forma de Sofia Serrano (Penélope Cruz) e David fica completamente apaixonado. A vida dos pombinhos seria linda e maravilhosa se Julie não tivesse uma crise de ciúmes e convencesse David a entrar no carro dela. Com o inferno de uma mulher rejeitada, Julie lança o carro em alta velocidade por cima de um viaduto. O resultado disso é que Julie morre, mas David sobrevive, porém com o rosto desfigurado e entra em coma por três semanas. Ao se ver no espelho, David fica horrorizado com o que vê e oferece qualquer quantia para reconstruírem seu rosto. A partir daí, a história é contada de maneira não-linear e penetra em meio as fantasias, visões e delírios do personagem.

vanillaCAA8HY7QO alto custo da produção favoreceu a bela Fotografia de John Toll e a Direção de Arte de John Chichester, contribuindo para que fosse uma produção visualmente [quase] impecável. A trilha sonora é memorável, contribuindo para o fácil e rápido despertar das emoções de empatia e identificação com o personagem David e seu dilema. Com poucas, porém substanciais modificações no roteiro, o filme se passa em Nova Iorque e Penélope Cruz reprisa o papel feito no longa-metragem original. Ver Penélope destilando seu inglês soa um pouco estranho, mas nada que ofusque sua bela atuação. Abordando temas comuns a Psicologia como o sonho lúcido*, a fuga da realidade o escapismo e o subterfúgio de uma realidade que é completamente massacrante, Vannila Sky consegue passar, a sua medida, a mensagem: “O melhor amor é aquele que é sonhado.

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Abre Los Ojos (1997), distribuído no Brasil como “Preso na Escuridão” e “Abra os Olhos” pelo Cine Belas Artes do SBT, é um longa-metragem escrito e dirigido pelo espanhol Alejandro Amenábar (Mar Adentro, 2004). Aqui no original, ao invés do típico “americaninho” David, temos o personagem César (Eduardo Noriega), um jovem rico e hedonista que em uma de suas suntuosas festas é apresentado pelo seu amigo Pelayo (Fele Martínez) a bela Sofia (Penélope Cruz). Para estragar a festa, Nuria (Najwa Nimri), a última namorada de César, não aceita de forma alguma que ele tenha outra mulher além dela e comete suicídio batendo com seu carro em alta velocidade contra uma árvore. Ela morre no acidente e César, que estava com ela no carro, tem seu rosto completamente desfigurado e não tarda para que entre em depressão. Após os médicos lhe informarem que há uma nova técnica revolucionária capaz de reconstituir seu rosto, Sofia reaparece para dizer que lhe ama. Mesmo de volta a felicidade, César é tomado por assustadoras visões. Logo, parece que seu castelo de felicidades está prestes a ruir e tornar-se um grande pesadelo. Não seguindo uma ordem cronológica em todos o momentos, o filme acompanha os devaneios de César.

 abres2imagesCom um orçamento bem menor do que seu remake, Abre Los Ojos não deixa de ser tocante – atrevendo-me a dizer que é muito mais comovente do que a versão americana. E, diga-se de passagem, é bem melhor ouvir e ver Penélope Cruz a vontade em sua língua natal. Porém, o longa-metragem não possui uma trilha sonora tão grandiosa como Vanilla Sky, fazendo com que a refilmagem torne-se um atrativo para alguns. Passando-se em Madri, o drama com misto de ficção mexe profundamente com os estereótipos, modelos e arquétipos humanos. Os temas abordados vão desde a possibilidade de se alcançar a imortalidade por meio dos sonhos, a partir de uma ideia futurista; até sobre o inconsciente avassalador que sempre está a espreita para sabotar a vida humana, derrubando a partir das lacunas deixadas pela consciência e traindo os seres humanos (aliás, os dois filmes dão pistas o tempo todo sobre isso). Abre Los Ojos é um filme que aborda os anseios mais profundos da humanidade e toca de maneira sutil em temas que são, geralmente, negligenciados pela grande maioria.

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 Apesar de Vanilla Sky ser o remake, optei por colocá-lo primeiro por esse ser mais “conhecido” entre o grande público. Vanilla é mais uma daquelas grandes produções hollywoodianas com um elenco de peso e não deixa de ser emocionante, mas fica evidente que não consegue realizá-lo com a mesma força do original. Cabe lembrar que é um blockbuster e que o tipo de público e a sua recepção são completamente diferentes, já que é difícil comover o grande público utilizando apenas da sutileza e sim com frases de efeito (daqueles típicos bordões próprios para serem citados nas redes sociais). Crowe também pode ter tido milhares de recursos tecnológicos a seu dispor, mas provavelmente não dispôs de certa liberdade que Amenábar pôde desfrutar em seu longa-metragem. Isso fica claro ao perceber que Abre Los Ojos é mais filosófico, com diálogos mais intensos e profundos. Apaixonante, a obra-prima de Amenábar faz com que o espectador se entregue mais facilmente ao drama de César.

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 Vale então assinalar o quão interessante é que o leitor confira os dois filmes, que diferem quanto à estética, os meios de produção, público a quem se destina e, principalmente, ao “contar a história”. Amenábar produziu uma obra primorosa que consegue facilmente capturar o espectador e, na melhor das hipóteses, deixá-lo a pensar sobre o filme durante um bom tempo. Tanto o original quanto a refilmagem merecem ser vistos – óbvio, abrindo aqui a indicação de assistir o original antes do remake, se puder. Assim como o sonhador protagonista César/David, que cada espectador possa ser tocado pelo ideal do verdadeiro amor ou que possa acreditar, pelo menos por um vislumbre de cerca de duas horas, que o amor verdadeiro possa ser real, que possa existir nos sonhos de cada um.

Trailer de Abre Los Ojos:

Trailer de Vanilla Sky:


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* Sonho lúcido: Percepção consciente que temos de um determinado estado ou condição enquanto sonhamos. Daí, as recordações são “lúcidas”, nítidas e aparentemente temos o controle total de nossas ações durante esse tipo de sonho.

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