Imaginaerum (2012)

É inegável que existam filmes que soam como músicas (com exceção dos musicais) e músicas que soam como filmes. Também não é de se estranhar quando algum artista do meio musical ou uma banda resolvem se envolver com o audiovisual para além dos videoclipes da MTV . Em uma dessas empreitadas arriscadas, a performática banda de metal finlandesa “Nightwish”, encabeçada por Tuomas Holopainen, decidiu que o seu sétimo álbum, lançado em 2011, seria literalmente cinematográfico.

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A partir do álbum conceitual que narra a história de um personagem, um velho atormentado por uma doença que no leito de morte luta para relembrar toda a sua vida, surge então a versão homônima e fílmica: “Imaginaerum” (2012), sob a direção de Stobe Harju. Com o roteiro de Mikko Rautalahti, Stobe Harju, Richard Jackson e Tuomas Holopainen, o espectador logo é apresentado a Tom Whitman, um compositor idoso que possui uma vasta imaginação. No entanto, toda a riqueza da vida de Tom se vê arruinada por uma demência que se alastra cada vez mais, apagando cada fio de memória que lhe resta. O filme, em sua maior parte, se passa dentro dos sonhos de Tom, que viaja em seu passado distante, onde seus antigos sonhos se misturam ao mundo de música e fantasias de sua infância. Paralelamente a isso, sua filha Gem Whitman vive um dilema entre abandonar o pai e assinar sua eutanásia, sepultando-o para todo o sempre.

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O roteiro do longa-metragem tem como foco a relação turbulenta entre pai e filha; ressaltando a imagem de um pai que superprotege a filha para que esta não entre contato com o seu passado nebuloso e conturbado e não repita os erros da família. Porém, essa superproteção custa a quebra do relacionamento sadio entre os dois e um afastamento da filha. Além disso, durante toda a sua vida a música parecia ser o palco e o centro das atenções de Tom, que aparentemente deixava a esposa e filha como meras coadjuvantes. Como se não bastasse, ele ainda tem que lutar com sua mente para que certas memórias que lhe são tão caras não sejam esquecidas e o principal: ele ainda tem que se lembrar de quem ele é. Não adentrarei sobre as questões da importância da memória para a “noção de Eu” do indivíduo (tema que já foi abordado na crítica do filme “Amour”), mas se faz interessante apontar que alguns relatos de parentes, amigos e até mesmo de pessoas que sofrem demência mostram que o quão doloroso é ir esquecendo-se de quem é pouco a pouco. É lenta, gradativa e irrecuperável.

Perder a sanidade antes de morrer é pior do que a morte em si” – Ann

O universo diegético de Imaginaerum é um show a parte, graças ao uso do CGI. O filme é visualmente uma bela obra, abusando das cores frias nos momentos certos durante a jornada mnêmica de Tom. Tais efeitos visuais também contribuem para criar um mundo fantástico que soa como uma mistura dos filmes de Tim Burton com alguns diversos contos de fadas da Disney (com direito a maçã envenenada, bruxas e Circo dos Horrores). Porém, tudo se perde dentro da prepotência e megalomania de Holopainen, o líder e mentor de tudo, que não sabe se hora ele quer ser Tim Burton ou se quer ser Johnny Depp. Além de atuar e aparecer bem mais do que os outros integrantes do Nightwish, a fonte criadora da banda também mostra que a história é essencialmente sua: ao invés de falar de si de forma poética e disfarçada, Tuomas deixa às vistas que o filme é seu, a história é sua e o “grande compositor” é ele. Lastimável.

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Dentre os outros personagens da trama, o destaque vai para a coadjuvante Ann, personagem que também é vivida em breves momentos pela vocalista Anette Olson, que é uma das ligações entre Tom e sua filha. Ela é a ponte a qual liga Gem e Tom, levando-os a um encontro de recordações e traumas do passado a serem superados. Seria até interessante falar da participação de Anette se a mesma não tivesse sido desligada da banda após o lançamento do filme. Enfim, coisas de Tuomas.

Apesar do fracasso em sua estreia na Finlândia, país de origem, Imaginaerum não é uma tacada de todo ruim. É evidente que o arco familiar poderia ter sido mais bem explorado e a pressa para apresentar a história e desenvolver o filme atropela a compreensão do que está se passando, deixando com que as lacunas sejam preenchidas pelo espectador mais atento e interessado. É uma gestalt não fechada. O problema de “gênero” também torna-se um incômodo a medida em que não se consiga definir a Fantasia, a Aventura, o Musical e o Drama. Ainda sim, o filme tem todo o mérito pela ousadia e pequena catarse que é despertada pela sua estética. É um daqueles entretenimentos exóticos de final de semana.

Nota: 6/10.

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Ficha Técnica:

Título Original: Imaginaerum. Direção: Stobe Harju. Roteiro: Stobe Harju, Mikko Rautalahti, Richard Jackson e Tuomas Holopainen. Elenco: Tuomas Holopainen, Anette Olzon, Erno Emppu, Marco Heitala, Jukka Nevalainen, Marianne Farley, Quinn Ford, Francis-Xavier McCarthy, Ilkka Villi, Joanna Noyes, Keyanna Fielding. Ano: 2012. País: Finlândia/ EUA.

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