Minhas referencias paternas

O dia dos pais, assim como qualquer outra data comemorativa é feita de (re)encontros de filhos e pais, de tristeza pelos que não mais estão vivos… dia de reconhecimento das mãe que na ausência do progenitor, por quaisquer que sejam os motivos, se tornam mesclas dos dois. Mas gosto de ter essa data, assim como o dia das mães, dia do amigo, dia do ornitorrinco… Como datas para me lembrar das referencias dos homenageados da vez.

É praticamente impossível levantar em um único artigo, todas as referencias que meu velho me passou em todos esses anos. É duro sim relembrar de muita coisa que passei por conta dele, muita coisa que ele passou por mim, muita coisa que tivemos que passar juntos. Mas é inegável a sua presença em toda área que eu me interesso, desde música até astrologia, o dedo de papai sempre está ali presente.

Meu pai não é diferente de muitos outros papais que existem hoje e sempre existiram. É separado de minha mãe há anos, mora sozinho, (até a minha presente intervenção) é triste, melancólico, e carrega sempre nas lembranças as mágoas que a vida fez questão de talhar em seus ossos.

Mas meu pai carrega o senso de humor mais panaca que pode existir, aquela graça que não é forçosa, mas necessária, impedindo a loucura de tomar posse de tudo. E se tornando em alguns momentos, a melhor pessoa para se espelhar.

Mas esse não é um artigo de blog de menininhas desabafando (na verdade é sim, eu que tentei adaptar pra não ficar feio postar no café) e sim um artigo para lembrar os primórdios das minhas referencias artísticas deixadas do meu pai para mim. A melhor herança que eu poderia receber. Como disse, não dá pra colocar tudo aqui de uma só vez, mas dá pra fazer um resumo, em tópicos, por que agora eu sou uma pessoa organizada (só que não).

01 – Musica:

Querendo ou não aceitar isso, nós somos diretamente influenciados musicalmente por quem nos cria, seja mãe, pai, vó, tio, irmã et cetera. E tive a sorte de ter um pai “pseudoanarcohippie”. O repertório musical do coroa era de uma qualidade primorosa (era, ela não morreu mas hoje em dia é quase impossível de acreditar no que ele houve). Escutava desde Legião urbana até Era, e sempre se empolgava no meio da sala para cantar um pedaço da música que ele sempre esquecia a letra. A música sempre foi importante ferramenta de instrução e divertimento que meu pai usava, não somente comigo e meus irmãos mais também com meus primos. Guardo na memória até hoje as noites em que os móveis da sala davam espaço a um simulador de observatório. Deitávamos todos os presentes no chão e olhávamos para o teto, as luzes apagadas ajudavam a criar a atmosfera perfeita, e quando estávamos todos embalados ao som de “Orinoco Flow”¹, ele pedia para fecharmos os nossos olhos, e no escuro que nos encontrávamos, literalmente pintássemos os nossos céus com estrelas, imaginando que nunca estaríamos no escuro. Sempre teríamos as estrelas para admirar.

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02 – Astronomia e Física.

Aproveitando a deixa do primeiro paragrafo. Meu pai sempre foi fascinado com as estrelas e planetoides que nos circundavam. Perdi a conta de quantas vezes fomos em observatórios apenas pela curiosidade. Eventos que envolviam o aparecimento de um novo planeta, uma nova estrela, ou novas fotos do Hubble. Era incrível ver ele apontando para cada constelação, sentado do quintal de casa e nos fazendo perceber todas as imagens que elas faziam, por que de seus nomes… Mas essa influencia não ficou apenas na minha infância, passou pelo meu período de pré-adolescência até os dias de hoje. Quando finalmente, consigo sair com meu pai para um bar, beber umas brejas com o cara e fumar uns cigarros contra a sua vontade, no lugar de sermões ou de reclamações constantes da vida, ele tecia várias teorias bizarras, e que naquele contexto etílico faziam todo o sentido, que me impressionavam um bocado. Foi no meio de uma dessas variadas e ricas conversas que surgiu a ideia para o meu livro que está empacado até hoje o “Horizonte de eventos”². Fazíamos muitos experimentos caseiros, como imãs eletromagnéticos, vulcões para feiras de ciências… jogávamos pedrinhas arredondados na superfície das lagoas e sabíamos que o que fazia com que elas quicassem era “somente” a velocidade que a pedra se encontrava versus a tensão da superfície da água, meu pai fazia questão de sempre explicar de uma forma diferente quando íamos para o mato. Quando ainda morava com minha mãe, ele era um dos poucos assinantes da revista superinteressante, que eu tinha noção, minha histórias de dormir eram sempre sobre alguma curiosidade sobre as moais da ilha de páscoa (aquelas cabeças de pedras gigantes, caso você tenha se esquecido ou não saiba mesmo), ou mais perguntas sem respostas sobre o grande mistério da humanidade: De onde viemos e para onde vamos?

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03 – Leitura

Hoje eu sou um leitor compulsório, leio de tudo um pouco, desde romances melosos e previsíveis até mesmo os mais complexos quebra cabeças morais. Mas isso foi um costume tardio, desenvolvi quando não tinha mais tanto contato com meu pai, a não ser seus manuais e revistas científicas, eu não me lembro de tê-lo visto lendo algum livro quando eu era pequeno. Mas lembro muito bem da sua insistência em me convencer que os estudos eram apenas a base do que eu realmente seria na minha vida – “A escola só vai te passar conhecimento, como você vai fazer com ele, você aprende do lado de fora” – Antes de tomar qualquer decisão, não importando se boa ou ruim, eu teria que estudar, sendo um cretino ou um bento, eu teria que ser bom no que escolheria fazer. Nessa época, que ainda dava beijo de boa noite na sua barba rala todo dia antes de dormir, ele me dizia como era saudável escrever, não importa o que, tirar de dentro do peito o peso que se sente em versos. Meu pai é um poeta esquecido, um filósofo sentimental que possuía uma gama primorosa de verbetes e pequenos contos e cronicas de uma sutileza ímpar. Material que infelizmente com o tempo foi se perdendo, junto com a sua vontade de continuar a escrever e criar histórias magníficas. Escrevia cartinhas de amor para minhas paixonites com pequenos desenhos do que representava pra mim a felicidade e paz de espírito. (geralmente tinha um sol medonho sorrindo) e somente com a minha entrada no ensino médio que comecei a escrever para ser um novo Tote³.

As referencias, ou melhor, pilares, dos meus gostos e escolhas de leitura tem sim uma interferência muito boa do meu pai. Depois de deixar para trás a inocência da infância, as indicações de livros começaram a aparecer constantemente, títulos que me marcaram, não somente pela grandeza do que estava escrito e pela qualidade que os autores empregavam ao escrever, mas também por ser indicações para até então, o homem mais sábio que eu conhecia. Os títulos e autores variavam, desde turma da mônica até até 1000 léguas submarinas. Os desafios de enfrentar a pesada mão de Kafka, de degustar da excelente escrita de Guimarães Rosa e viajar no universo de um dos autores que mais me influenciou, Jostein Gaarder (Cujo aqui no café tem alguns artigos sobre alguns livros, O mundo de sofia e O Castelo dos Pirineus, esse ultimo tendo até um sorteio)

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04  – Amor á natureza

Hoje eu sou um cara muito urbano, gosto de frequentar barzinhos e cafés, sempre que posso vou no cinema, gosto de ir cheirar os livros que eu não posso comprar, de alguns shows em pequenas casas de apresentações, estar sempre que posso conectado na internet… Mas desde pequeno, fui direcionado a nunca esquecer do prazer que é estar livre leve e solto no meio do mato. Nunca acampei com meu pai, mas sempre íamos nos mais diferenciados lugares (que cabiam no nosso estreito orçamento) para estar em contato com a natureza. Um dos lugares que mais frequentávamos era os arredores do Rio do Gaia, em Sabará. Era uma delicia nadar naquela água fria, repetir sempre o ritual de tacar seixos no rio, e sempre ir em um ponto diferente que ainda não tínhamos experimentado ou visitado. Nessa época, que eu consigo me lembrar vagamente, mesmo já não sendo tão novo assim, meu pai tinha um jipe vermelho que era um charme. O Tote móvel. Com ele que passamos os melhores momentos de quando eu era mais juvenil. Não somente eu e meus irmãos estávamos nesses passeios, vira e meche o jipe (ou até mesmo quando íamos a pé) ficava abarrotado com primos para passeios nos parques arborizados de Belo Horizonte, como o Pipiripal, Mangabeiras, O municipal…. Era uma passeio melhor e mais divertido do que o outro. É importante destacar que esses passeios não eram raras ocasiões, raro mesmo era ter um motivo para um final de semana não aprontar nossas malas animados para as picadas de mosquito e para o barro que grudava em nossas roupas e corpo por dias.

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Pontilhão do Gaia – Sabará, MG

05 – Filmes

Em fim, a maior e mais presente influencia do meu pai até hoje. A cinefilia. No inicio dos anos 90 era muito difícil ter um aparelho que lesse um Video-cassete, mesmo com a sua incrível popularidade ainda nem estar sendo arriscada pelo surgimento dos DVD’s. Um aparelho custava uma nota, e não era todo mundo que estava disposto a gastar ou sequer tinha saco pra comprar um, pelo menos não um com a qualidade do que tinha lá em casa (Sendo uma época muito remota da minha vida, eu não me lembro como tínhamos conseguido um). Meu pai alugava sempre quadro filmes pra gente assistir, cada filho podia escolher um, eramos até então eu, minha irmã mais velha Jessica e meu irmão mais novo Hugo, e um filme era sempre escolha dele. Claro que era uma mistura de gostos e estilos sempre a cada locação, mas esse que era o barato, assistíamos mais de uma vez os filmes, até não aguentarmos mais. Gostava de entender nos mínimos detalhes e procurava sempre os cassetes que vinham com extras, com erro de gravação, bastidores, entrevistas com a equipe de produção. Claro que nessa época eu só assistia o filme pelo nome, nem ator e nem diretor, roteirista, ninguém me chamava atenção. Não me importava as vezes de ver algum filme que não me agradava muito, fazia parte, na minha cabeça, de um acervo grande de filmes que eu nunca indicaria alguém a ver. A fixação que tenho hoje por filmes não era a mesma que daquela época, hoje procuro filtrar muito mais do que vejo, mesmo ainda procurando muita porcaria pra ver, e vendo muitos títulos inúmeras vezes, apenas para relembrar.

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¹Orinoco Flow como mostrado no video é uma musica da Enya. A musica faz parte do álbum “Painting the sky with stars” é essa a referencia que eu faço ao pintar estrelas nos nossos “céus”.

² Horizonte de eventos é uma série que eu comecei a postar algum tempo atrás aqui no café, postei apenas sete capítulos do primeiro livro “Primavera” – Horizonte de eventos é uma referencia da fronteira teórica que existe ao redor de um buraco negro, onde a força da gravidade é tão forte que nem a luz consegue escapar. Dentro da teoria da relatividade, é um termo utilizado para as fronteiras de Tempo-espaço. No livro uso exatamente o contrário, pequenas histórias que se interligam minimamente criando um universo propicio ao acontecimento de uma história final, baseado na teoria do caos e seus braços, como o mais famoso, “O efeito Borboleta”.

 ³ Tote é o apelido do meu pai, e por mais que eu tenha várias referencias e várias pessoas que eu convivi que me impulsionaram a escrever, é impossível negar que meu pai não tenha sido a mais forte e presente.

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