Pequenas Esferas escuras – Nilto Maciel

Dando continuidade a coluna que já virou meu xodó, o café essa semana trás mais um conto brasileiro. Dessa vez quem dá as caras é Nilto Maciel.
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Na rua estreita e curta, de casinhas de porta e janela, sem jardins, nunca passavam carros. Os meninos se divertiam à vontade nas calçadas e no meio da rua revestida de pedra tosca. Dé chamava Li para jogar bola de meia. Eu chuto e você pega. Eu sou Mazola e você é Gilmar. Num rádio, Nelson Gonçalves cantava “Boemia, aqui me tens de regresso”. Não, eu não sou homem. Sou Li, a melhor goleira do Joaquim Távora.
O menino e a menina passavam os dias a brincar, de bola, boneca, correr, na calçada e em casa. As mulheres da vizinhança os viam com desprezo e advertiam os filhos: Não se aproximem deles. Parece que não têm pai nem mãe; vivem soltos na rua. Nada de brincar com eles. Mesmo assim, os bichinhos buscavam amizade com os outros. Em vão. Meninos e meninas fugiam deles. Dona Gertudes varria a calçada com exaltação, como se varresse toda a sujeira do mundo. Não estudam esses pestinhas. Dona Ismênia tentava se impor nas vassouradas. Quem fazia comida para eles? Certamente, eles mesmos, pois nunca vi adulto na casa. Dona Filomena se dizia cansada de tanto varrer papéis. Quem comprava os mantimentos? Eles mesmos, certamente. Ou talvez não comam nada. Dona Gertrudes apresentava mais preocupações: Como se chamam esses diabinhos? Dona Ismênia segredava a resposta, com voz compassada: O menino, ouvi dizer, se chama Décio. Aproximava-se dona Filomena, ouvidos bem abertos: Não, não é Décio. Meu filho descobriu o nome do menino. É um nome difícil: Demerval. À noite, sentadas na calçada, voltavam a falar dos nomes: Pois não é que o bichinho se chama Demétrio. Quem te disse isso? Descobri também o nome da menina: Lígia. Deu uma gargalhada dona Gertrudes. Como a amiga gostava de inventar coisas! Pois tinha certeza de que a garota se chamava Lília. Ao iniciar a explicação da descoberta, dona Ismênia a interrompeu: Lília coisa nenhuma. A pequena se chama Liliana. E provo o que afirmo. Remexia-se na cadeira e olhava firme nos olhos das vizinhas: Sabiam que são gêmeos?
Em casa, o menino às vezes dizia: Quando tivermos nossos filhos… A menina se irritava: Não fale mais isso. Não podemos ter filhos. Irmãos não podem se casar. É pecado. Além disso, filhos de irmãos nascem aleijados.
As mulheres não paravam de bisbilhotar, ora durante a varrição matinal da calçada, ora à noite sentadas em cadeiras diante das casas. Dona Gertrudes confidenciava: Eu soube que o pai morreu num acidente e eles vivem com a mãe paralítica. Dona Filomena conhecia outra versão: O pai não morreu. Saiu de casa há muitos anos e deixou os meninos com a mãe, que pede esmola. Dona Ismênia sabia de outra história: A mãe se prostituía e só voltava para casa de manhã. Ia dormir, enquanto os filhos se soltavam na rua.
Um dia Dé e Li dormiram até tarde, como nunca faziam. Esqueceram a hora de dormir, em brincadeiras na cama. Li acordou primeiro, pôs os pés fora da cama, calçou as chinelas e se dirigiu ao banheiro. Notou, porém, uma coisa estranha na casa: parecia pisar em bolinhas duras, pois escorregou diversas vezes. De volta do banheiro, já bem desperta, viu no chão pequenas esferas escuras. Seria cocô de bicho? Imaginou cabras dentro de casa. Com nojo, buscou uma vassoura e se pôs a varrer aquilo. Ao dar a primeira vassourada nas esferazinhas, se apavorou: os objetos se juntaram e passaram a se movimentar por si mesmos. Gritou pelo irmão. Acorda, homem. A casa está tomada por continhas. Talvez sejam bolinhas de gude pequenas. Parecem também com as do rosário de nossa mãezinha. Pegou uma e examinou-a de perto. Parecia de pedra, madeira, ferro, algum metal. Dé acordou sobressaltado. O que é isso, mulher? Está doida? Também examinou uma peça. E se irritou: O colar era seu, vagabunda? Quem foi o macho que lhe deu essa porcaria? Vou pisar com força para ver se estoura ou se quebra. Pisou com vigor e raiva, e nada de rachar a esférula. Cheia de pavor, a menina olhava para o menino e as bolinhas. Não tente mais fazer isso, Dé. Se uma delas estourar, nem sei o que pode acontecer.
Nos dias seguintes, passaram horas a discutir a origem e o destino das contas. Podemos vendê-las? Ou assustar as pessoas. Tudo faziam para nunca juntar as esferas. Quando elas se uniam, eles davam chutes no chão ou vassouradas para separá-las. Morriam de medo quando ocorria o ajuntamento de algumas delas, pois viravam um ser ameaçador que corria atrás deles, subia as paredes, as mesas, os móveis. De noite, galgava a cama e os atormentava. As mulheres da vizinhança espionavam pelas brechas da porta e da janela e cochichavam: Estão varrendo a sala. Não sei por que tanto varrem o chão? Devem ser uns porcos. Dona Gertrudes levava as mãos aos olhos, como se não quisesse ver a cena: Veja, Filomena, eles estão nus, os sem-vergonhas. Vamos chamar a polícia. Dona Ismênia queria enxergar a sem-vergonhice e empurrava as amigas.
Dé e Li continuavam à espreita para não deixar uma conta se juntar a outra, porque sem demora o ciclo se desencadeava: as duas se arrastavam e alcançavam a próxima. Crescia o animal e logo todas as continhas se juntavam, formando o monstro. O medo do menino e da menina era estarem dormindo e um ventinho qualquer juntar duas peças. Poderiam ser sufocados de noite. Por isso, dormiam no quarto trancados, todas as frinchas da porta obstruídas com panos.
Entretanto, precisavam se livrar daquele tormento: levar os objetos para bem longe de casa. Como? Num saco? Não, num saco não. Isso seria conduzir o monstro. Vamos levar as peças uma a uma. Para onde? Cada uma será deixada numa rua diferente. Dé se prontificou a fazer o serviço. Li ficasse de olho na casa e nas contas. Ela não gostou da ideia. Sentia medo ao ficar só. Ele então fez a proposta final: Ou as bolinhas ou eles em casa. Juntos é que não poderiam viver.
Certa tarde as comadres da rua sentiram falta do casal. Dona Gertrudes chamou dona Filomena e dona Ismênia. Precisavam averiguar direitinho a situação na casa. Vamos espiar pela brecha da janela. Olharam, olharam, e nem sinal dos meninos. Por onde andavam os pestinhas? Devem estar dormindo. Vamos ver isso. E se dirigiram à entrada. Dona Filomena empurrou a tábua e a porta se escancarou. Uma rajada de vento levou as três mulheres para o interior da casa. E uma coisa esquisita, a se arrastar pelo chão da sala, se aproximou dos pés delas.
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